AMOR E PAIXÃO EM CONVENÇÃ0

   
   

Psic. Nivaldo Campana

Curitiba, outubro/2008

ncamp@uol.com.br

http://www.condonare.com.br/psicologia.htm

 
 

         Fiquei intrigado com uma entrevista onde Rosely Sayão, psicóloga renomada, declara com todas as sílabas que o amor morre no casamento depois de algum tempo. Dizia ela que nenhuma paixão sustenta um casamento, mas a amizade, sim. Refletindo sobre isso, penso que há muita confusão entre os termos “amizade”, “amor” e “paixão”. Vou incluir ainda “compaixão”. Intuitivamente entendemos o valor de cada termo, porém a linha divisória entre o significado de cada um deles é algo nebuloso.

 

         Como ninguém é dono da verdade, poderíamos convencionar o seguinte:

 

         1°) COMPAIXÃO – Quando sentimos que não queremos o sofrimento do outro, mesmo que seja um estranho. Aliás, é um sentimento genuinamente humano. Os animais são incapazes de senti-lo. Compaixão depende de capacidade empática, capacidade de imaginar-se no lugar do outro e perceber seu sofrimento. Receio que muitas pessoas estejam prejudicadas nessa capacidade, talvez por falha genética combinada com história de vida. Se incapacidade para sentir compaixão for, por hipótese, resultado de falha genética¹ independente da história de vida, não seria difícil imaginar tratar-se de um fator de caráter não-evolutivo da espécie, haja vista o exemplo de Hitler. Pessoas com tal deficiência tenderiam a não perpetuar seus genes em função do meio violento em que vivem e da reação que provocam. Lembra-me até aquela piada sobre dois caboclos bem do Interior quando lhes perguntaram por que sua cidade era tão pacífica. Responderam “aqui num tem gente violenta não, sô! Os que chega, nóis mata!” Brincadeira à parte, penso que compaixão é antídoto de violência. Analisando a História desde seu princípio podemos perceber a compaixão tomando o lugar da violência, pouco a pouco. Sim, penso que há esperança para a Humanidade – sem apelação a pieguices.

 

         2°) AMIZADE – Se o sentimento de compaixão nos faz notar o sofrimento alheio, o que dizer daquele que nos faz satisfeitos apenas com a presença do outro? O “querer estar perto do outro reciprocamente” é um sentimento que poderia ser convencionado como amizade. A presença do outro nos deixa à vontade, a ser o que somos sem receios, a dizer qualquer bobagem que quisermos, pois esse outro nos aceita por inteiro. Não nos ofendemos com suas críticas porque confiamos plenamente em que somos bem queridos. Mas isso ainda não seria amor.

 

         3º) AMOR – Se amizade é querer estar perto do outro, não seria também um ingrediente do amor? Até pode ser, todavia há uma característica que podemos convencionar para diferir amizade de amor: o “querer cuidar incondicionalmente”. Quem ama, essencialmente cuida. Não importa a forma desse cuidado, afinal, cada um tem seu jeito próprio de amar, ou cuidar. Ocorre ainda, para quem ama, a crença inabalável de que os seus cuidados são imprescindíveis para o outro(a), mesmo que esse outro(a) os negue. Uma enfermeira cuida de seu doente: pode não ser amor porque existe a condição da remuneração neste tipo de relação, logo, não há incondicionalidade. Alguns cuidados incondicionais podem ser até opressivos, mas podemos reconhecer neles a essência do amor: é aquela mãe chata que não larga o pé da filha adolescente. Assim, cuidamos dos filhos, dos pais, da companheira ou companheiro, ou até de uma profissão. E quanto mais tempo dedicamos cuidados, mais cresce tal sentimento: típico do amor que só tende a crescer com o tempo (não confundir com paixão). Por isso é fácil entender que podemos amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo, o que parece razoável. O amor mais puro e mais forte é o amor de mãe e poderia ser definindo numa frase: PORQUE TU SOFRES, EMBORA SUPORTAS, EU SOFRO INSUPORTAVELMENTE. O amor não exige a reciprocidade como a amizade. Podemos amar sem ser amados, cuidar sem ser cuidados, entretanto, não podemos ter um amigo que não nos reconheça como tal. Mas isso ainda não seria paixão.

 

         4º) PAIXÃO – Como podemos convencionar a paixão que parece tão próxima do amor? Na paixão  dos casais notamos um sentimento que não está integrado necessariamente no amor: podemos convencionar como o “querer fundir-se no outro”. Já houve quem comparasse a paixão a uma espécie de canibalismo, figurado, é claro. Mas não deixa de ser uma vontade de devorar o outro, incorporar o outro no seu próprio corpo. Nesse sentido, a paixão conjugal torna-se exclusiva, não há lugar para mais ninguém. Assim, parece razoável supor que seria impossível estar apaixonado² por duas pessoas ao mesmo tempo, o que difere fundamentalmente do amor. Podemos sentir prazer em cuidar de duas pessoas ao mesmo tempo, amá-las, mas fundir-se em outro só cabe num. Outra característica da paixão que difere do amor é o tempo. São inversamente proporcionais no tempo. Enquanto o amor tende a crescer, a paixão tende a decrescer. A paixão parece armadilha da Natureza para unir dois corpos visando à reprodução: surge fulminante no auge da idade reprodutiva e, depois de perpetuar a espécie, arrefece no amor com o passar dos anos.

 

Talvez seja isso que Roseli Sayão quis dizer quando falou que o amor morre no casamento depois de algum tempo. O que morre é a paixão, por isso ela está certa quando diz que nenhuma paixão sustenta um casamento. Faltou dizer que o amor cresce entre o casal quando um cuida do outro espontaneamente. Se não cuida, pode ficar na amizade. Se não sobrevive com amizade, pode permanecer pelo senso de humanidade. Se não houver nem isso, é hora de procurar ajuda psicológica. Se não der resultado, contrata-se um advogado. Aliás, o psicólogo deve ser procurado bem antes do advogado se a vontade de cuidar entrar em crise.

 

Uma boa reflexão é imaginar se esses sentimentos de compaixão, amizade, amor e paixão são interdependentes. Será que um depende do outro? Será que podem, ou devem, coexistir? Particularmente creio que podem, mas não necessariamente. Seria o máximo se na paixão estivesse subjacente o amor, e neste a amizade, e nesta o senso de humanidade. Qualquer desequilíbrio nesses vínculos poderia estar sinalizando necessidade de assistência psicológica. Ou alguém duvida que nunca possa existir paixão sem amor e vice-versa?

 

        Resumindo, os vínculos interpessoais prováveis poderiam ser convencionados assim3:

 

                   Senso de compaixão = não querer o sofrimento do outro

                   Senso de amizade = querer estar perto do outro

                   Senso de amor = querer cuidar do outro

                   Sendo de paixão = querer fundir-se no outro

 

        Claro está o caráter reducionista desta brincadeira, pois não podemos definir compaixão, amizade, amor e paixão com três ou quatro palavras, haja vista a complexidade de tais sentimentos. Entretanto, tomando-as como simples referência poderíamos diferenciar melhor o que seja amar do que seja estar apaixonado. O que permanece e o que esvaece.n

________________________________________________

   
 

(1) A questão de atribuir algum tipo psicológico à genética humana é algo perturbador e inaceitável entre psicólogos. Costumamos entender que somos aquilo que vivemos, que nascemos nada e aprendemos tudo, afinal, nosso cérebro é um órgão extremamente plástico, adapta-se conforme a exigência do meio onde se desenvolve. Entretanto, generalizar é um perigo para conclusões. Sabemos que o cérebro do recém nascido tem muito mais neurônios que do adulto, porém, menos ligações entre si. O cérebro do bebê, repleto de neurônios,  é determinado por sua herança genética e sua experiência no mundo vai selecionando as áreas cerebrais mais solicitadas. Isso significa que neurônios começam a morrer mesmo antes de a criança nascer e prossegue até o envelhecimento. O cérebro se adapta na sobrevivência pelo apagamento de neurônios e não pela formação deles. O que aconteceria se uma falha genética determinasse uma falha numa área funcional do cérebro do bebê (área pré-frontal, por exemplo) responsável pela integração humanitária? Por hipótese, a adaptação poderia ficar prejudicada nessa função, independente do meio. Talvez faltasse esse "parafuso" na cabeça de Hitler.

 

(2) Assim é até possível entender por que alguns maridos juram amar suas esposas, mesmo depois de terem sido flagrados no outro lado da cerca. Não estão jurando paixão, mas amor. Não dá para imaginar Romeu apaixonado de olho na vizinha de Julieta. É paixão que os parceiros conjugais esperam um do outro, eternamente. E, equivocadamente.

 

(3) Nada foi dito sobre um outro tipo de vínculo, a IDOLATRIA, que poderia também ser confundia com a PAIXÃO. Mas podemos notar que na idolatria aparece um vínculo unilateral comumente de um grupo de pessoas em relação a um único símbolo. Esse símbolo pode ser uma religião, um time de futebol, um grupo de rock, um cantor, um ator, etc. Não há como confundir com a paixão.