DISCORDAR, MAS ACEITAR:

   
 

Uma Questão de Respeito

   
   

Psic. Nivaldo Campana

Curitiba, junho/2006

ncamp@uol.com.br

http://www.condonare.com.br/psicologia.htm

 
 

          É bem possível que você ainda não se deu conta da sutil diferença entre os termos "concordar" e "aceitar", assim como a grande maioria das pessoas, e, com isso, pode estar sofrendo algum tipo de conflito pessoal ou relacional sem o saber.

             O sofrimento pessoal a que me refiro é aquilo atravessado na garganta, difícil de engolir, ou de aceitar. Pode ser  qualquer coisa da qual você discorde, uma idéia, uma exigência, uma perda, um rompimento ou algo parecido. Pode ser também uma pessoa ou a conduta de uma pessoa que lhe é cara. Entendendo a sutileza entre os termos "concordar", "aceitar" ou "discordar" e "não aceitar", talvez você se transforme a partir de hoje.

              Muita gente pensa que não concordar com alguma coisa significa não aceitar essa coisa, que "discordar" e "não aceitar" é a mesma coisa. Mas não é. Se você adotar a idéia de que pode discordar à vontade das pessoas, ou coisas que lhe acontecem ao redor, mas que as aceita, o mundo pode mudar de repente e você se livrará dos conflitos interiores. Esses conflitos ficam remoendo no seu interior porque você não tem controle sobre todas as coisas e não consegue alterá-las. É o que tentamos fazer com as pessoas: queremos ter controle sobre elas e alterar seu modo de ser, de pensar, ou sua conduta, configurando apenas uma grande falta de respeito a elas. Mas discordar delas não é falta de respeito, é um direito seu e respeito por você mesmo quando expressa o que pensa, desde que, é claro, não seja numa situação inoportuna.

              Se existe alguma coisa da qual você discorde e ainda por cima não pode aceitar, o conflito interno estará instalado. Para resolvê-lo é necessário avaliar a possibilidade de mudar essa coisa, desde que não seja o modo de ser de uma pessoa. Não havendo possibilidade dessa mudança, não há saída a não ser aceitar a coisa como ela se apresenta. Sejamos drásticos no exemplo e vamos considerar a perda de um ente querido. É uma perda com a qual jamais concordaremos, mas nada podemos fazer para mudar tal situação. Enquanto não se aceitar essa perda, o sofrimento ficará instalado corroendo o coração.

              Considere agora uma relação entre namorados. Imagine que você, sendo uma mulher, flagre seu namorado arrastando asa para uma sirigaita. Você não vai concordar com isso e se recusa a aceitar a conduta dele. Pior, você percebe que não foi um caso isolado, que ele é fraco para um rabo-de-saia e tal conduta se revela impossível de mudança. Não conseguindo mudar isso no "cachorro, safado, sem-vergonha", e não conseguindo aceitar essa conduta, não há outra saída a não ser o rompimento. Se não romper, terá de aceitar. Se não aceitar, terá de romper. É o que acontece com mulheres que são sistematicamente espancada pelos companheiros. Elas não concordam, mas aceitam a situação porque não querem romper, imaginando que o espancador vai mudar um dia. Acontece também com homens apaixonados cujas mulheres os desprezam. Eles as aceitam porque não querem o rompimento, embora não concordem com a maneira como são tratados.

              Como vemos, aceitar alguma coisa com a qual não concordamos, e nem podemos mudar, é sinal de maturidade e respeito ao outro. De outro modo, conviver com algo que não concordamos e não aceitamos é viver em eterno sofrimento. Se você revisar sua maneira de ver as coisas e perceber que não é possível mudar aquilo que não consegue aceitar, só há um jeito de parar a dor: o rompimento. Qualquer rompimento dói. Mas cicatriza com o tempo. Entretanto, se você percebe que está sofrendo porque não concorda com alguma coisa mas que isso pode ser perfeitamente aceito, então aceite.

               Para ficar mais claro, podemos montar uma tabela cruzando os conceitos apenas para refletir melhor, sem intenção reducionista, considerando que "concordar ou não" é um conceito que relaciona você com o exterior, ou com alguém; e "aceitar ou não" relaciona você com seu interior, ou com seu coração.

X ACEITAR NÃO ACEITAR
DISCORDAR sinal de respeito conflito e sofrimento
CONCORDAR não há conflito evento impossível dentro da sinceridade

               Quando uma pessoa sincera, honesta e ética concorda com alguma coisa, está implícito que ela aceita a situação. Se ela discordar, não significa necessariamente que não esteja aceitando. Portanto, você pode se expressar à vontade dizendo "eu não concordo, mas aceito" e jamais "eu não aceito, mas concordo".

                O que importa é não viver em eterno sofrimento preso no cruzamento "eu discordo e não aceito" que isso faz mal para o coração, para a saúde e reduz a qualidade de vida. Claro que há pessoas que sentem um mórbido prazer com tal sofrimento. Nesses casos, pobres daqueles que lhes são próximos, amigos e parentes. Afinal, conviver com pessoas que gostam de sofrer é dose prá leão.

                Neste caso, o leão pode ser um bom psicólogo.n