Síndrome de Pato Donald

 
   

Psic. Nivaldo Campana

Curitiba, setembro/2008

ncamp@uol.com.br

http://www.condonare.com.br/psicologia.htm

 
 

 

         

Quando John Lennon disse que "a vida é aquilo que passa enquanto estamos ocupados fazendo outras coisas", possivelmente estava se referindo ao quanto ficamos ligados em coisas banais e não a usufruímos em toda sua beleza potencial.

Parece inacreditável que o ser humano do século XXI ainda desperdice energia cultivando pequenas birras, pirraças ou retaliações gratuitas a troco de um prazer mórbido por pequenas vinganças — enquanto a vida vai passando.

Quando não é trágico, é cômico ao lembrar a personalidade do Pato Donald de Walt Disney elaborada para produzir muitas risadas nos embates com seus desafetos pirracentos. Rimos porque nos identificamos com ele. Quem já não teve vontade de torcer o pescoço daquele vizinho marrento que espalha lixo na calçada e ainda dá de ombros pra gente? Nossa vontade é retribuir o lixo em sua calçada, coisa típica do Pato Donald.

A psicologia ensina a atitude assertiva para esses casos, mas não vamos falar sobre isso. A assertividade seria uma atitude racional, porém, mesmo sabendo como agir racionalmente, a pessoa se nega a fazê-lo preferindo a atitude emocional da birra, da retaliação. Por que isso acontece?

Quero especular o fenômeno do ponto de vista da neurologia. Qual o paralelo dentro do cérebro dessas pessoas quando estão motivadas para uma atitude de “dar o troco” ou a pagar na mesma moeda?


Localização do Córtex da Ínsula dentro do cérebro

Com os avanços da tecnologia de rastreamento da funcionalidade cerebral descobriram-se núcleos neuroniais que revelam modificações de suas atividades durante certos prazeres. Os neurônios do córtex da ínsula, que monitoram o estado do corpo, ficam mais ativos também com a dor alheia como se o sofrimento fosse nosso, segundo um estudo(*) feito em 2004 pelo grupo da neurocientista Tânia Singer, no Reino Unido, ou seja, estão ligados à empatia. Seriam, digamos assim, os neurônios do bem.

Por outro lado, é razoável inferir que os neurônios do Nucleus Accumbens do sistema de recompensa, associados à sensação de prazer, também se mostrariam mais ativados pelo sabor da vingança, da retaliação, das birras e pirraças bem sucedidas.


Circuito de recompensa e localização do Nucleus Accumbens

Autores de estórias, filmes e novelas exploram muito bem esses tipos de prazeres maniqueístas que nos fazem adorar as aventuras do mocinho ou babar de prazer quase orgástico num riso gutural sádico esfregando as mãos quando o bandido se dá mal.

Até aqui, nada de mais porque todos somos assim — ou nem tanto. Entretanto, o prazer pela maldade se torna mórbido — uma doença — quando fica fora de controle e fonte única de prazer da pessoa, justificado por ela como “uma questão de justiça”. Parece que pessoas assim procuram conflitos e encrencas para possibilitar uma revanche a seu opositor e com isso alimentar seus neurônios do mal sem se darem conta disso. É razoável supor que quanto mais tais neurônios são exercitados, mais se desenvolvem em suas sinapses, atrofiando aqueles do bem, virando um círculo vicioso.

É claro que esta é uma divagação divertida e especulativa da complexidade cerebral, mas parece fazer sentido na prática do cotidiano, haja vista a dificuldade para as pessoas vingativas de mudarem sua conduta, embora não seja impossível, considerando a plasticidade cerebral e as estratégias da psicoterapia.

O círculo vicioso pirraça-prazer-pirraça mantém a pessoa presa numa belicosa relação social tornando-a incapaz de sair dele sem a ajuda profissional de um bom psicólogo ou de um amigo de verdade.

Amigo de verdade é aquele que percebe o absurdo das vinganças gratuitas sem se deixar contagiar por elas, não retroalimentando tal absurdo ao amigo marrento. Amigo superficial, ao contrário, “assume as dores" e bota mais lenha na fogueira, agravando a situação.

Vale lembrar que amigo de verdade é algo raro. Mais raro que psicólogo na praça.<

(*) Tal estudo foi mencionado por Suzana Herculano-Houzel, neurocientista,  professora da UFRJ e autora do livro "Fique de Bem com o Seu Cérebro" (ed. Sextante) e do site "O Cérebro Nosso de Cada Dia" (www.cerebronosso.bio.br)